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sábado, 26 de março de 2016

A grande metáfora - Leonardo Boff

 A grande metáfora

Leonardo Boff – teólogo/filósofo/escritor
 (Sexta-feira Santa de 2006)

   Para os cristãos a Semana Santa é a grande semana em que se celebra a vida, a morte e a ressurreição de Jesus. Esses três fatos são momentos de um único processo, chamado de "mistério pascal", mistério da passagem (páscoa na linguagem bíblica) da vida para a morte e da morte para a ressurreição. Ou então da passagem do cativeiro egípcio para a libertação do povo no deserto e para a conquista da terra da promissão.
    Hegel quando jovem estudante de teologia em Tübingen (foi primeiramente teólogo bem como Heidegger) em seu Stift (seminário) teve durante a sexta-feira santa uma iluminação que modificou toda sua vida e que está na raiz de sua filosofia. Chama a esta sexta-feira de "sexta-feira santa teórica". Viu a unidade do processo da natureza e da história que passa pela vida, pela morte e pela transfiguração bem como no mistério pascal cristão. Chamou a isso de dialética.
      Se bem reparamos, a semana santa, para além de seu caráter religioso, representa uma grande metáfora. Tudo no universo, nos processos biológicos, humanos e biográficos se estrutura na forma da dialética. O primeiro momento é a tranquila serenidade e paz infinita daquele pontozinho quase infinito de onde viemos. De repente, sem sabermos por que, ele explode. Produz um incomensurável caos. A evolução do universo significa um processo de criar ordem no caos. Cada ser vivo nasce, se desenvolve, morre e se transfigura no Todo. As sociedades passam por crises. As estrelas-guia já não respondem aos novos desafios. Produz-se um processo de dissolução. Quando se define outra forma de organização social emerge uma nova ordem com um outro sentido de ser. O ser humano vive seu arranjo existencial sereno e tranquilo. Eis que irrompe a crise e tudo se abala. Purifica-se, madura e cria outra ordem vital. Esta por sua vez, lentamente, também se desestabiliza e somente volta à serenidade quando elabora outro sentido de vida ou passa para uma outra dimensão além-morte. Em todo esse processo dialético há a experiência de vida, de morte e de transfiguração; de ordem, desordem e nova ordem; de tese, antítese e síntese. A complexidade segundo E. Morin se estrutura nesta dialética.
    Nesta visão dialética a pessoa não foi criada para conhecer um fim na morte, mas para se transfigurar através da morte. Passa, como diriam os alquimistas medievais, por um processo alquímico e entra numa ordem mais alta. Os cristãos chamam a isso de ressurreição. Ela não significa a reanimação de um cadáver, mas a transfiguração completa do ser humano em comunhão com o Ser. É a dialética da semente: "se o grão de trigo, caindo na terra não morrer, ficará só, mas se morrer produzirá muito fruto", como disse o Mestre.
    Hoje a natureza e a humanidade vivem sob pesada sexta-feira santa ameaçadora. Há devastação e sofrimento em demasia. A via-sacra tem estações sem fim. A nossa esperança é que este padecimento se ordene a uma radiante transformação, a um novo paradigma de convivência onde não seja tão difícil tratarmos os seres da natureza com compaixão e nossos próximos com humanidade e com cuidado.
    Depois que Cristo ressuscitou após um fragoroso fracasso pessoal não temos mais direito de ficar tristes e de perdermos a esperança. Do caos pode vir sempre vida nova. A história e a saga de Jesus nos oferecem um sinal credível.
Leonardo Boff é autor pela Vozes de
                Paixão de Cristo-paixão do mundo. 

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