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domingo, 14 de março de 2010

Mulher africana

Bico de pena, aquarela e selo, 2007
Mulher africana
desenho, martha pires ferreira
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quinta-feira, 11 de março de 2010

Senhora das imagens internas

Escritos dispersos de Nise da Silveiras
Edição: Cadernos da Biblioteca Nacional, 2008 – RJ.

II – Anexo - Palavras de Nise.
“O inconsciente é um imenso oceano, por vezes emergem umas imagens”. “A psique humana é um fenômeno fantástico. A capacidade criadora é extraordinária.”

Dra. Nise gostava mais de ouvir do que de falar. Um rádio; ela gravava tudo. Observava cada pessoa nos olhos; os gestos, as atitudes: “Está gata já lhe adotou, pode ficar.”

“As pessoas que amam o poder, o comando, não gostam de gatos. Os gatos são seres livres, não seguem normas. Veio aqui uma senhora cheia de empáfia para eu participar de um grande evento internacional que ela está organizando, acontece que de imediato demonstrou aversão aos gatos, foi o suficiente para eu fizer, ‘não posso, os gatos não permitirão’. Ela foi embora sem entender nada.”

“Meus livros de arte são instrumentos de trabalho. Tenho grandes paixões, Leonardo da Vinci é um deles. Sou particularmente apaixonada é por Rembrandt. Ele mergulhava profundamente como Leonardo. Observe a pintura dele. Se você sonha, você mergulha - o da vigília e o do sonho - dois mundos.”

“O artista, o poeta, mergulha no inconsciente e volta. Já o doente, o louco, não tem o bilhete de volta. Essa é a diferença.”

“Sempre me dirigi aos doentes pelo nome, jamais os chamo de pacientes. Eu os trato como seres humanos, pessoas. A palavra paciente me irrita muito.”

“A inteligência e a sensibilidade do esquizofrênico permanece intacta mesmo na aparência de estar cingida, em ruínas. Verifica-se isso com clareza quando encontra alguém com quem ele possa se relacionar afetivamente.”

“Não sei fazer nada sem procurar uma base mais profunda, sem ler, pesquisar. As referências são fundamentais.”

“Nosso objetivo principal é entrar no mundo interno do doente, é conhecer este mundo e que ele entre em contato conosco. Não é desejo de que o doente se expresse de forma artística, o que nós queremos é que ele se expresse em imagem, como linguagem. O simples fato de desenhar ou modelar é terapêutico. Ele fica mais leve, diminuem o medo e as tensões.”

“Em matéria de educação não basta conhecer o mundo externo, é necessário tomar seriamente em consideração a função imaginativa ao dar forma a conteúdos do inconsciente.”

“A palavra que mais gosto é liberdade.”

“O simples fato de pintar despotencializa a angustia dos doentes. Observando as imagens percebe-se, mesmo sem que haja uma tomada de consciência. Eles se sentem mais aliviados. Plasmando com as próprias mãos, a pessoa doente vê que as imagens são menos apavorantes. Vê-se uma considerável melhora na vida pessoal, nas relações externas.”

“Produzir imagens expressas em emoções já é por si terapêutico, é remédio. Prefiro as atividades expressivas à camisa de força química. Não que seja contra os remédios, longe de mim, mas sou avessa às doses elevadas de psicofármacos.”

“Aprendi mais com a literatura do que com os trados de psiquiatria. Um conto de Machado de Assis, Missa do Galo, exprime com mais clareza e sutileza as coisas do que um psiquiatra. Aprende-se mais com Machado de Assis sobre a natureza humana do que em livros de psicologia.”

“Gosto de mergulhadores, pessoas que estudam a fundo o mundo interno. A maioria das pessoas tem medo do inconsciente, ficam na superfície. Preciso de mergulhadores com escafandro. Quem quer estudar psicologia que compre um escafandro e mergulhe com o
esquizofrênico.”

“É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade.”

“Eu me sinto bicho. Bicho é mais importante que gente. Pra mim o teste é o bicho, se não passar por ele, não tem vez. Freud disse que quem pensa que não é bicho, é arrogante.

Alguém perguntou: “Dra. Nise quantos gatos a senhora tem?” Respondeu: “Nenhum,” fez uma pausa constrangedora e continuou, “Gatos não se têm, atualmente, convivo com cinco gatos.” E foi dizendo o nome dos gatos; Vivaldi, Bruna, Madre Superiora,... e se não erro, disse que já teve 17 gatos ao todo; Mestre Onça, Elci, Mafalda, Tigre Rei, Lord Byron, Narcisa, (nota de 1978). Teve entre outros; Helena, Léo, Che, Miele, Raphael, e o último que se chamava Carlinhos.

“Estou apaixonada. Sempre me apaixonei”. Estava com as obras completas de Murilo Mendes sobre a mesa quando cheguei a sua biblioteca. “Leio Murilo Mendes como uma oração. Em Roma ele me disse ao nos despedirmos ‘Até breve, até outra galáxia’. Eu era sua irmã sobrenatural.” (1994)

“O silêncio é fundamental. E para criar, é preciso privacidade.”
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Senhora das imagens internas,
Escritos dispersos de Nise da Silveira (15 ensaios de Nise)
Organização: Martha Pires Ferreira
R$ 25,00 -
info@leonardodavinci.com.br
Tel. 55 (21) 2533-2237
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segunda-feira, 8 de março de 2010

Hoje, 8 março, dedicado à Mulher.

Viva o dia da pessoa humana – Mulher!
Dia de se cantar, dançar, sorrir, abraçar e amar em plenitude. Liberdade de ser mulher!

Mulheres mal resolvidas aproveitam o dia 8 de março para escrever coisas tolas contra os homens.

Perdoem - me, não sou a única! Cresci, aprendi e muito, muito, evolui no convívio com Homens afetuosos, cultos e inteligentes.
Tive a sorte de encontrar e conhecer homens que amam as mulheres. Animus que elevam a mulher, que as quer mais cultas e eficientes no meio profissional.

Devo muito do que sou a algumas Mulheres como minha mãe, Henriqueta, a Dra. Alice Marques dos Santos, a Dra. Nise da Silveira e tantas outras educadoras e preciosas amigas. Entretanto, igualmente, sou feliz pelos grandes Homens que passaram por minha vida; desde meu pai, artistas, intelectuais e tantos outros que conheci. Em especial aos que amei e me amaram, profundamente - os quais permanecem presentes em meu coração feminino.

Ah, os homens lobos malvados, bicho papão, cruéis!
Ah, as mulheres interesseiras, fúteis, raposas de galinheiro!

Viva os homens que nasceram das mulheres! Viva a alteridade!
Viva as mulheres sensuais, amorosas e geradoras de potencialidade criadora!

Viva as grandes mulheres que por nobreza de espírito, evolução cultural e sensibilidade afetiva estão cada dia mais ensinando/sinalizando aos homens a serem cada vez melhores e mais harmoniosos como pessoa humana!
Viva a Vida que nos permitiu nascermos, e no mistério dos opostos, nos enriquecermos umas para com os outros – feminino - masculino!
Mulheres e Homens realizando, lado a lado, o mundo que se quer justo, fraterno, generoso e manifesto de humanidade e felicidade.

Viva o dia de hoje, 8 de março! Viva a mulher, desde a mais desqualificada e esquecida a mais realizada e libertária!
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sábado, 6 de março de 2010

Simbolismo do Conto - As Três Plumas

Uma visão sociológica e mitológica

O Rei cansado necessita repassar o seu reinado. Convoca seus filhos.
Os donos do século XX sem direção não sabem como lidar com o ritual de passagem de um milênio para outro - conduzir os seus reinados para o séc. XXI. Convocam seus súditos, mas perdidos se conflitam com a face do desespero.
Os poderosos apresentam ao Planeta um quadro de progresso industrial tecnológico altamente sofisticado, entretanto, econômica e politicamente um horizonte sem saída. Velhos e cansados perderam controle de suas ambições triunfalistas, perderam o domínio de suas possessões. Decadentes nas áreas humana, religiosa e ambiental tornaram-se privados da potência criadora, só conhecem a força das armas. Perdidos sem direção, “os donos do mundo”, convocam países submissos à corrida do sonho da globalização; a salvação de mão única. Necessário manter as rédeas do controle imperial. Dos sete mais poderosos reinos com mãos firmes no comando passaram para oito, e, agora são vinte os que sentam à mesa das negociações e exibem seus trunfos, suas fontes de energia, reivindicam espaços e direitos para todos. Frágeis, os menos industrializados como nação acham que copiar os velhos modelos de capital, de visão de mundo, estarão realizados como nação igualitária.
A dimensão dos territórios, qualidade da mão de obra escrava, troca de interesses, tudo pesa e é levado em conta para os “donos do mundo”. Quais países prometem mais sucesso? Qual terá a melhor economia, desempenho social, menos estrago ambiental? Quais serão os mais obedientes? Cultura nativa, valores locais e genuínos? Isto nada vale.
A pluma é soprada, aos reinos mais frágeis é exigido retorno de produção, economia estável, consumo de riquezas industriais e tecnológicas: um grupo vai para o Oriente – simbolizado por um dos filhos e outro grupo (país / nação) dirige-se para o Ocidente, simbolizando o outro filho – direções opostas, interesses múltiplos.
E o filho mais tolo, incapaz, o João-Bobo, o país/ nação, dos mais marginalizados, excluídos? Estacionado sem apoio e consciente de sua própria condição olha para o chão e vê um bueiro/alçapão. Não tendo outra escolha levanta a tampa do alçapão e desce as escadas: um bueiro sujo, escuro; não teme em bater na porta encontrada. Defronta-se com a Rainha Rã, soberana conhecedora do mundo subterrâneo, das forças da natureza. É ali que os povos, as nações desprezadas encontram o tesouro da Rainha Rã - Mãe Natureza, Mãe Terra.
Simbolicamente os Reis/Rainhas dos poderes palacianos, detentores dos bens comuns da natureza, não dormem mais tranqüilos já que perderam as direções. Não sabem que filhos/nações os substituirão. O crepúsculo dos “senhores” do mundo tem seus dias contados, angustiados sabem apenas que caminham num tempo/espaço de absoluta incerteza. Não vêem mais qualquer saída. E todos, em todos os recantos do planeta Terra, tremem o futuro na incerteza.
Cronos /Saturno (em Libra), senhor de tempo implacável, simbolizando os Reis, os Impérios da Terra, não quer largar as mãos do controle dos seus poderes. Os filhos ambiciosos e submissos, países dependentes, também, não são acolhidos, plenamente. As desavenças permanecem, os reinos não se entendem. Batalhas intensas se travam.
Os sinais celestes traçam recados. A mitologia nos ajuda entender estes sinais. Zeus/Júpiter (em Peixes), Poseidon/Netuno (em Aquário), Hadés/Plutão (em Capricónio), Uranus (em Peixes), Ciclopes e Hecatônquiros confrontam Cronos, reivindicam seus lugares. Os transtornos continuam. Os impasses são tremendos; os efeitos apocalípticos na epiderme, os temores no coração.
A humanidade inteira está despertando para enfrentar a metamorfose morte-ressurreição!
Como em todas as metamorfoses, em todas as grandes mudanças – o que é formoso, belo e precioso, surge da depuração – como na Alquimia.
Os “donos do mundo” não aceitam, as ofertas, as reflexões, as realizações dos filhos mais tolos, marginalizados, Bobos. Entretanto estes são os únicos capazes de mergulhar nas camadas mais árduas, difíceis e profundas da Natureza e trazer as respostas que a espécie humana, realmente, necessita para se reerguer e realizar seu maior sonho: gerar felicidade, brindar, dançar e cantar, namorar e amar. Dormir tranqüilo sabendo que viver requer trabalho, descanso, diversão e alegria. São os simples, os tido como Bobos, os portadores do bem maior, são eles que vivem em harmonia com Gaia, a fonte soberana da Natureza, quem nos dará a boa nova.

O homem lúcido não perde a meta – ele trabalha incansavelmente por um mundo humano e pleno de alegria – ele sofre e não teme a metamorfose. – Aceita o peso do mundo sobre os seus frágeis ombros e não se desespera. Confia. Confia, sobretudo nas forças da natureza. Acredita no amanhecer da lucidez universal. Confia no princípio coordenador de energias, nas forças renovadoras que emergem do centro mesmo da psique. Trabalha no silêncio e no amor.
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segunda-feira, 1 de março de 2010

Conto de fada

As Três Plumas
Irmãos Grimm

Era uma vez, há muito e muitos anos passados, um Rei bastante poderoso que tinha três filhos. Os dois mais velhos eram espertos, agitados e tidos como inteligentes, mas o mais novo era muito calado, quieto e simplório, e ficou sendo chamado de João Bôbo.
O Rei ficando mais velho e adoentado, ficou preocupado, e temendo alguma violência ou revide ao seu reino, achou que devia escolher um substituto. Ficou pensando e resolveu passar o seu reino para um dos filhos, sem saber qual dos três príncipes deveria subir ao trono depois de sua morte, chamou os filhos e disse:
- Meus amados e queridos filhos, já estou com idade avançada, estou bastante velho e adoentado, possivelmente viverei pouco tempo mais.. Quero garantir a sucessão ao trono. Vai cada um pelo mundo para conhecer coisas novas e ganhar experiência, aquele que me trouxer o mais precioso tapete, esse será o herdeiro do trono depois que eu morrer.
Os filhos seguiram o Rei que os conduziu até ao belo e majestoso portão em frente ao castelo, aí o Rei soprou três plumas para o ar, e disse:
- Cada um de vocês deve seguir o vôo de uma dessas plumas. Cada um vai seguir o seu destino e trazer o que pedi. E logo se retirou para o castelo desejando boa sorte aos filhos.
A primeira pluma voou para o ocidente, a segunda para oriente e a terceira pluma não voou para mais longe, ela sobrevoou no ar e caiu ali mesmo.
Em conseqüência disso, um dos filhos seguiu para um lado, o outro para o outro lado, e o mais novo ficando sem direção alguma a tomar, sentou-se e ficou ali mesmo pensando onde caíra a terceira pluma.
Observando a sua sorte, João Bôbo, sentado no chão, de repente, notou que perto da pluma havia um bueiro, um alçapão; resolveu erguer a tampa e viu que esta, dava para uma escada. Não perdeu tempo decidiu descer por essa escada e chegou diante de uma porta, na qual bateu três vezes. Imediatamente lá de dentro ouviu uma voz, dizendo:
- Rãzinha, rãzinha, verde e pequenina, estica as perninhas do cachorrinho, vai rápido ver quem está a bater.
A porta se abriu e João Bôbo entrou numa grande sala onde uma Rainha Rã, velha, estava sentada, tendo a sua volta muitas rãzinhas. A Rainha Rã perguntou ao príncipe o que ele desejava. O que estava fazendo ali.
Ele respondeu que estava à procura do mais precioso tapete do mundo para levar ao seu pai.
A Rainha chamou uma rãzinha e disse:
Rãzinha, rãzinha, verde e pequenina, vai rápido e depressa, bem depressa, buscar minha caixinha de xarão.
A rãzinha foi ligeira buscar a caixa, a Rainha abriu-a e tirou de dentro, um magnífico tapete, tão lindo como não havia igual no mundo e deu-o a João Bôbo. Ele agradeceu o presente e subiu pela mesma escada.
Os dois irmãos maiores achavam que o irmão menor, bôbo como era, jamais conseguiria encontrar algo que prestasse e cada um pensou:
- Para que preocupar-me tanto a procurar! Acharei belo tapete.
Com atitudes violentas e grosseiras, cada um deles tomou com força os xales das pastorinhas que encontraram no meio do caminho e levaram ao Rei. Pouco depois chegou, João Bôbo, com o precioso tapete e estendeu ao chão . Quando o rei viu os três tapetes, não pôde deixar de encantar-se com a beleza do que lhe apresentava o filho menor e exclamou maravilhado:
- É de toda justiça que o trono pertença ao meu filho mais moço, pois foi ele quem trouxe o tapete mais lindo e deslumbrante.
Os filhos mais velhos imediatamente protestaram indignados dizendo ao rei:
- Meu pai, isso é um absurdo, como pode entregar a direção do reino a um bôbo como nosso irmão. Exigimos que nos indique outra condição para obtermos o posto do reinado. Diante disso, o pai resolveu dar outra chance dizendo:
- Então estarei à espera daquele dentre vós que me trouxer o mais rico e belo anel, desta forma o farei o herdeiro do meu trono.
Levou, novamente, os filhos diante do castelo e soprou as três plumas, dizendo que deviam seguí-las. Os dois irmãos mais velhos, dessa vez, se dirigiram para dois caminhos; um para oriente, outro para ocidente, enquanto que a pluma de João Bôbo, voando em linha reta, foi cair novamente perto do alçapão. Como ele já sabia o que fazer, desceu a escada, bateu firme na porta e foi ter com a Rainha Rã, que espantada perguntou o que acontecera. João contou tudo e pediu à Rainha das Rãs que o ajudasse a descobrir o mais rico e belo anel do mundo. A Rainha ordenou que buscassem a caixa de xarão. As rãzinhas correram rápidas e trouxeram uma linda caixinha, a Rã abriu-a e tirou um belíssimo anel, todo cravejado de pedras preciosas, tão maravilhoso que nenhum ourives da terra seria capaz de fazer igual.
Entregou-o para João Bôbo, e lhe disse:
- Toma este anel, é o mais valioso e belo que existe no mundo.
Os irmãos mais velhos haviam ido embora caçoando de João Bôbo, certos de que ele iria procurar um simples anel nem de prata ou de ouro e não se preocuparam de encontrar um lindo anel. Cada um limitou-se a arrancar um simples arco de um velho aro de carroça e levaram-no ao rei. Quase que ao mesmo tempo todos chegaram ao palácio, e os três, juntos apresentaram cada um o seu anel. O Rei preocupado examinou-os e disse com todo cuidado:
- Não tenho a menor duvida; o anel do meu filho mais jovem é sem dúvida o mais rico e belo; portanto o trono será dele.
Os irmãos mais velhos, não se conformaram, ficaram brigando muito e atormentaram o pai de tal forma, que este propôs uma terceira condição.
- Darei a última prova e a mais difícil; aquele que trouxer a noiva mais formosa, esse será o escolhido para ser o herdeiro do trono.
E, novamente, soprou as três plumas enfrente do portão, que voaram como das outras vezes, uma para o oriente, a outra para o ocidente, e João Bôbo foi pela terceira vez procurar a Rainha Rã. Bateu na porta e disse logo ansioso:
- O Rei me pediu para levar para o palácio a noiva mais formosa do mundo; Rainha Rã a ninguém eu poderei recorrer, ajuda-me a encontrá-la.
- Como! – disse a rainha, - a mais formosa do planeta, do mundo? Não será assim tão fácil! Para qualquer outro seria dificílimo, mas para você que veio tão cheio de confiança conseguiremos a mais formosa e encantadora noiva do mundo!
Deu-lhe em seguida uma cenoura oca, na qual estavam atrelados seis camundongos. João, muito desapontado e sem saber o que significava aquilo, perguntou:
- Que farei com isso?
A rainha respondeu:
- É só pegar uma das minhas rãzinhas verdinhas e coloque-a dentro da cenoura oca.
Ele ficou espantado e sem relutar pegou, ao acaso, uma dentre as muitas que estavam em volta da Rainha; colocou-a dentro da cenoura e, imediatamente, viu-a transformar-se na mais delicada e formosa dama, ao mesmo tempo em que a cenoura se transformava numa carruagem maravilhosa e os seis ratinhos em seis belíssimos cavalos. E lá se foi João Bôbo na carruagem, em carreira vertiginosa para o palácio, radiante de felicidade e alegria.
Chegaram, juntos, ele e os dois irmãos ao castelo dos pais. Os dois não se dando ao trabalho de procurar uma noiva bonita, cada um deles, acompanhado de uma simples jovem encontrada ao acaso.
O Rei, vendo as três moças e os gestos delas, disse:
- Sem mais problemas; o meu filho mais novo continua sendo o escolhido, ele é quem será o herdeiro da coroa.
Mas os filhos mais velhos não concordaram e continuavam atordoar os ouvidos do rei com indignação e protestos que deixaram o Rei muito triste. Os dois disseram logo:
- Não podemos permitir que João Bôbo governe o reino!
E exigiram que fosse dada a preferência aquele cuja mulher pudesse saltar por dentro de um arco pendurado no teto, no centro da sala do palácio. Eles pensavam que jovens experientes habituadas a exercícios fortes conseguiriam, facilmente, vencer a prova, ao passo que salto tão grande poderia matar a frágil dama que João trouxera.
O Rei custou, mas concordou e tudo foi preparado para essa última e decisiva prova. Primeiro saltou uma das jovens, mas tão desajeitada que caiu e quebrou o nariz e o braço e a outra quebrou as pernas. Por fim, chegou à vez da linda jovem que viera com João Bôbo. Com graça extrema e com a agilidade e elegância, saltou através do arco com perfeição, sem quebrar coisa nenhuma. Com isso acabou toda a briga e o Rei declarou:
- Pronto, agora chega de provas; o trono cabe de direito absoluto ao meu filho mais jovem. Está definitivamente decidido e pronto.Não demorou muito tempo e o Rei faleceu. João Bôbo subiu ao trono junto com a mais linda, graciosa e generosa Rainha do mundo. Como João era generoso deu cargos aos seus irmãos. A jovem Rainha e João Bôbo foram muito felizes, tiveram muitos filhos, sendo o reino governado com grande prudência e sabedoria por muitos e muitos anos.
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