Vaso - bico de pena e aquarela, 2012
A Mulher no Terceiro Milênio
Para
entendermos a totalidade da natureza da mulher é necessário um mergulho na
história do feminino desde os tempos primordiais. Vamos encontrar no campo das
religiões e dos mitos as chaves para a compreensão da essência da mulher – o
conhecimento de sua arqueologia interior e suas manifestações no mundo externo.
A humanidade patriarcal e matriarcal foi
surgindo e se organizando em vários momentos da história que se perdem no
tempo. Tudo faz admitir que nas sociedades arcaicas o que reinava era o
matriarcado – a mulher era a guardiã e sacerdotisa da vida intrinsecamente
unida à natureza, a grande Mãe-Gaia.
No processo de evolução do princípio
feminino, para o seu desenvolvimento e complementação é necessário o confronto
com a natureza e os princípios do masculino a fim de assimilá-los e
entendê-los. Os confrontos entre o Homem e a Mulher em todos os tempos sempre
foram complexos e imensamente misteriosos. Nessa longa caminhada da evolução
feminina em que se vivenciam as mais fortes emoções é natural que a mulher
assuma o materno. E por materno se entende tudo que é fecundado, criativo e
dadivoso – como as árvores, como a própria essência da natureza.
A árvore sempre representou o universo materno, o
símbolo da vida. No Brasil temos a nossa majestosa mangueira que tranquila e
sábia segue o ritmo das estações; aceita seu momento outonal ao perder seus
frutos, recolhe-se no seu inverno enigmático e deixa-se florescer e ofertar
suas saborosas mangas na primavera e verão, gloriosa em sua trajetória anual.
Raízes profundas sustentam forças internas que se manifestou sobre ela, o tronco
fincado no chão da realidade se expande e se abre em copa majestosa voltada
para os céus num desejo ardente de percepção universal e absoluta plenitude. A
árvore é uma representação arquetípica da imago feminina.
No desejo de chegar a seu núcleo criador, a
mulher terá que confrontar sua sombra obscura e por vezes tenebrosa,
manifestando a pujança da força feminina em toda a sua grandeza natural. As
armas poderosas da mulher sempre foram o poder do coração amoroso, a
compreensão afetuosa aliada à reflexão intelectual e aos assuntos relacionados
com a vida interna e espiritual.
A dominante neste terceiro milênio será
retomada do princípio feminino em sua essência. Vivemos, hoje, um grito de
desespero predatório, o sabor das destruições generalizadas. A nossa desgastada
civilização masculina institucionalizada primando pela racionalidade, provedora
em ciência e tecnologia avançadas, vive paradoxalmente a sua falência
humanístico-cultural, chegou ao seu ponto mais alto. Terá que dar espaço a um
novo ciclo da história da humanidade. Terá que caminhar em outra direção. Uma
nova civilização que se identificará não com as manifestações dos “poderes”
puramente pragmáticos a serviço do consumo desenfreado e insaciável, mas sobre
tudo, no que a natureza possui de solidária e humanamente afetuosa. O terceiro
milênio em sua sede de calor humano e equilíbrio em todas as áreas do
conhecimento voltar-se-á para o princípio feminino, receptivo, o qual se
estenderá fértil no coração do mundo com Amor – Sabedoria, fonte primordial da
vida, em harmonia com o princípio complementar masculino.
Martha Pires Ferreira [Texto publicado na
Folha de Trancoso, julho de 1990, por Jorge Mourão - Bahia - breve revisão em
2007].
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