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sexta-feira, 8 de março de 2013

Teologia Afetuosa da Libertação


          Teologia da Libertação, sim. Teologia Afetuosa da Libertação.
          Teologia amorosa, fraterna, solidária, por opção preferencial pelos mais carentes, marginalizados, esquecidos, pobres, sem ou com poucos recursos necessários para viverem com autonomia e autodeterminação vida digna e justa, igualitária e humana. Teologia do Amor que liberta e promove o ser humano em sua essência. Teologia que não visa promessas longínquas de recompensa e felicidade a serem vividas somente na eternidade, pos mortem, mas a Teologia viva, não dicotomizada, vivida com dignidade, com espiritualidade, no reino de Deus a partir da reflexão e interioridade, no aqui e agora; no chão da Mãe terra, acolhedora, democrática, sem excludências. Teologia, sede do sagrado, ciência vivida por todos, não por uma classe rançosa, pretensiosamente “teolocrática”.  Teologia Afetuosa da Libertação com o Arquiteto Celeste, na inspiração, respiração e transpiração; no centro do Cosmo; no coração da existência; fonte primordial que não está em parte alguma e está em todas as partes.
           A Igreja, o Templo, a Capela, a Casa de Orações, a Sala de Meditação, é um espaço geográfico que foi estipulado para recolhimento e orações. Não foi criação de Jesus Cristo ou Buda, mas dos seres humanos com objetivo de encontros comunitários, fraternos, com a finalidade de proporcionar interioridade em conexão com o sagrado, o Divino. Locais de diálogos profundos entre o eu e o sagrado, tendo as mensagens de Jesus Cristo, no caso do cristianismo, como horizonte ou finalidade de se estar aqui no mundo relativo e em contato íntimo com Deus absoluto – a experiência do reino de Deus em nós.
          A Igreja católica tem como meta, por meio das mensagens do Evangelho, proporcionar ensinamentos deixados por Jesus Cristo; a compreensão das manifestações humanas e divinas na criação, e, a tomada de consciência de que a ressurreição vence a morte. Adquirir o saber que o outro, também, está em mim e eu nele. O outro é tudo que não sou na minha individualidade relativa, mas que está em mim por entendimento da totalidade, da essência indivisível. Teologia que nos liberta, que nos conscientiza da fonte primordial, do incognoscível. Que seguir a mensagem de Jesus é ouvir e se pronunciar com liberdade igualitária diante dos bens da Natureza, sem posturas privilegiadas, mas de alteridade. Quem é a Igreja? É a comunidade, o povo que a compõe. Ouvir a voz da comunidade, do povo, é ouvir a voz de Deus. Deus fala através do povo.
          A Igreja católica, hierárquica, monarquista e fechada na cúpula, perdeu seu rumo, sua postura, sua dignidade, seu lugar. Distante dos anseios da cristandade, do conjunto de indivíduos que a compõe, está isolada; não terá saída.
          Sem a presença do feminino em seu corpo decisório, liturgias e homilias, a Igreja católica fracassará plenamente porque não condiz com o mundo moderno onde a mulher se posiciona em plena consciência de seus valores humanos como pessoa e cidadã responsável. Não mais segue padrões obsoletos, arcaicos e unilaterais excludentes. A mulher conquistou seu lugar na sociedade civil que não mais lhe será tirado. Ela alcançou sua autonomia política, social e espiritual. A Igreja dos homens ficou isolada com os homens. A mulher que superou a si mesma, em sua interioridade, por estar à margem das decisões clericais, é livre espiritualmente, está além das normas e princípios eclesiásticos. Silenciosa permanece em seu quarto, fecha a porta, e conversa com o Criador que tudo apreende neste sábio estar sendo. O espaço sagrado não é um espaço geográfico determinado, demarcado, por imposições litúrgicas machistas e de uma única demanda. O sagrado contem o masculino e o feminino por complementação, por integração dos opostos; dia e noite, bem e mal, luz e sombra, ativo e receptivo, o rígido e o flexível.
          A Igreja, inflexível, onde os homens se ilharam, agoniza. Não ouvem os clamores de seu povo. Na escuridão, surdos e cegos, gritarão pela presença do afeto e flexibilidade feminina; na cultura chinesa, Yang e Yng.
         O cristão que encontrou o caminho seque o Cristo com liberdade criadora; Ama o próximo como a si mesmo. Palavras do poeta hermético, eremita escondido em sua caverna: “O Grande Homem, mantém o seu modo de pensar independente da opinião pública. (...) Respeita somente a verdade. Tem mente de homem e coração de Criança. Conhece a si mesmo, tal qual é, e conhece a Deus”.
         Igreja não é papolatria, não é hierarquia centralizadora, nem cúria romana com seus aparatos monarquistas medievais, absolutistas, há muito ultrapassado diante da realidade contemporânea. Igreja é prioritariamente lugar de recolhimento, de orações e espiritualidade. Jesus Cristo, o mensageiro, o Ícone, o Deus encarnado, é a ponte entre o ser e o não ser, entre a matéria densa palpável e o universo das ideias, o logos; é a promessa escatológica da plenitude e felicidade eterna, a partir do aqui mesmo terrestre. Jesus, o Messias, arquétipo do inconsciente coletivo, é a integração possível dos opostos inconciliáveis; o sagrado e o profano; a completude misteriosa da existência em sua infinitude.
          O outro é Cristo e está em mim, logo estou no outro, por semelhança. Não há dicotomia, separações, só existe unidade; unus mundus.
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martha pires ferreira, eremita urbana, pés descalços.
Dia 7 de março de 2013. Reflexões >>>> Teologia Afetiva da Libertação >>>> acompanhando à distância o isolamento dos bispos em Roma, possivelmente se debatendo intelectual, emocional e organicamente diante dos escândalos da Cúria; Igreja mergulhada na corrupção e desqualificada em sua moral. Momento de transição para outros níveis de consciência ou petrificação. 
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