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domingo, 20 de abril de 2008

Atividade terapêutica e criação artística

Atividade terapêutica e criação artística são fatores distintos. Terapêutico tem sua raiz na palavra terapia - tratamento. Terapêutico é recurso/meio para aliviar ou mesmo curar uma pessoa de doença, desequilíbrio ou desgaste mental/psíquico, físico e/ou emocional. Terapêutico é um termo da medicina na sua prática.
Atividade terapêutica, ocupação terapêutica, visa proporcionar satisfação, melhora ou recuperação ao doente ou pessoa em estado alterado em sua natureza fazendo-o trabalhar, ocupar-se, com algo ativo que proporcione bem estar, ou mesmo o cure de sua doença, que o possibilite retornar ao seu estado normal de saúde emocional, física e/ou mental.
O terapeuta médico ou técnico terapeuta conhece bem as indicações terapêuticas - encaminhará a pessoa em questão para a análise, psicologia analítica e/ou atividade ocupacional criativa.
Pintar, dançar, escrever, caminhar, praticar uma atividade física, ouvir música, pode ser terapêutico. É sempre terapêutico fazer uma atividade que nos alivie de tensões, desgastes ou desequilíbrios de nossas funções naturais (seja a função do músico, pintor, filósofo, desenhista ou matemático) nos proporcionando um retornar à vida normal, saudável. Quanto mais criativa for a atividade melhores os resultados.
Muitas vezes o/a artista caminha pelas avenidas ou jardins, passa horas em silêncio, ouve música ou pratica um esporte como terapia/alívio de tensões para depois retornar às suas atividades criadoras, isto é, pintar, escrever, compor.
É sempre terapêutico sair da rotina e fazer algo que seja uma atividade expressiva.
Criação artística não pode ser identificada com atividade terapêutica porque demanda um tremendo esforço intelectual, muito desgaste emocional, concentração, imaginação e plena atenção das funções em uso. Não é exercer simplesmente uma atividade terapêutica, é criar. Dar vida a algo inédito, novo.
Há tanto desgaste no ato criador que por vezes o artista adoece no simples exercício de sua criatividade, quando é preciso procurar um antídoto, procurar uma atividade que o descanse, que o recupere nas suas energias criadoras em exaustão. Por vezes o criador (o/a artista) procura um terapeuta para entender a si mesmo, ficar bem para poder retornar às suas funções de trabalho.
Criar não é alívio, é suor, cansaço. É terapêutico tocar um instrumento, mas tocar não é por si mesmo um ato de criar. Criar exige realizar emocional e conscientemente uma obra. Criar não é terapia é ato criador, é inventar, é exercer a função imaginativa criadora em sua originalidade.
Atividade terapêutica é atividade com a finalidade de tratamento. O artista não faz algo por ser terapêutico, e sim porque dá origem a alguma coisa. Pode acontecer de precisar fazer uma análise, um tratamento que vise uma atividade terapêutica, neste caso jamais a mesma atividade que já exerce, mas outra atividade que seja antídota da habitual como compensação das energias.
O que caracteriza a arte é a originalidade criadora.
Para o compositor Carlos Jobim caminhar pelo jardim Botânico era terapêutico na medida em que descansava ao ouvir os pássaros, convivia com a natureza e depois voltava para o seu piano e refeito voltava a criar - dar existência a algo impensado. Para Jobim tocar piano e compor não era terapêutico, era criar, suar, sofrer no bom sentido, inventar, dar origem a cada nova composição.
Bach, Pixinguinha, Spinoza, Cesanne, Matisse, Picasso, Paul Klee, Henry Miller, Thomas Merton, Cildo Meireles, Antônio Dias, Manuel Bandeira, A. Einstein, Chico Buarque, Pitágoras, Heráclito, Freud, Carl G. Jung, Nise da Silveira, Machado de Assis, eram/são criadores. Era terapêutico para Jung trabalhar com as mãos, para Spinoza polir lentes e para Nise da Silveira cuidar dos gatos e ficar em silêncio absoluto antes de retornar as suas atividades criadoras.
Já no início dos anos setenta eu afirmava; ‘todo e qualquer ser humano é potencialmente um criador. É da natureza humana querer inventar, criar, dar vida a algo original. A criação artística não é o privilégio de um pequeno grupo de artistas, nem o dom de uns poucos – verifica-se que todo ser humano é potencialmente um artista-criador em maior ou menor grau.’
( Martha Pires Ferreira / 2007 )

2 comentários:

Deni disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Deni disse...

Martha,
este texto é um show!
Sabia que te visitar aqui é terapêutico para mim?!
Agora relendo tua - bem construída e cheia de propriedade - reflexão é que me dei conta disto.
E como se aqui me reabastecesse para novas jornadas.
Insuflo-me!
Bacana, né?!
Marta, vc escreve muitísimo bem!Parabéns!
Sabe como dizer o que quer dizer!!!

bjs