Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Hélio Pellegrino, memória tantas!
[publicado _ Cecília e Bandeira / 10 maio de 2012 _ aqui, cadernoaquariano.blog] _ Hoje, pequenos acréscimos, 2026
De repente tenho saudades das vezes que vi ou estive com Cecília Meireles, Manuel Bandeira e tantas mulheres e homens admiráveis. Na minha juventude esbarrei, no caminho, com notáveis da nossa cultura brasileira. Relendo este dois poetas e vendo fotos tão expressivas, voltei-me ao passado com olhos abertos e a carne viva. Escreverei noutro momento sobre breves encontros. Palestra de Cecília na ABI, agregava tantos, sedentos de sua sabedoria. E Manuel Bandeira caminhando lento da Av. Beira Mar em direção à Presidente Wilson, Castelo, e, por ajudá-lo, já bem idoso, no atravessar a Rua, me convidou para tomar um chá na ABL com a simplicidade que lhe era própria _ sorria, percebi que gostava das mulheres como se fossem flores! E eu nem sabia se era ele, só depois que me dei conta, confirmado. Não conhecia bem o rosto do poeta, havia pouca divulgação.
A porta interna do meu armário de vestir era um quadro mural. Colocava ali o que me tocava; textos e fotos. Em 1964, quando Cecília faleceu, fui olhar a foto e a poesia ali presentes;
e a minha vida está completa.
Não sou alegre, nem triste:
sou poeta”.
Clarice Lispector andava em lugares mais discretos, mas andava, por que sei;
no Jardim Zoológico a observar os animais. Eu a conheci em casa do artista
plástico Darel Valença. Djanira passeava por Santa Teresa apoiada em sua
bengala; gostava de estar misturada ao povo que tanto amou. O pintor Loio
Persio descia a Rua Aprazível, onde morava, para tomar café no Bar do Arnaudo e
o escultor Roberto Moriconi transitando confortavelmente pelo bairro, a pé ou
em sua limusine, acenado como bom italiano, era pura alegria.
O Museu de Arte Moderna extensão de minha morada desde sua fundação. A
nata das Artes estava semanalmente ali presente. Até meados de setenta aquela
festa viva de encontros inesquecíveis entre artistas plásticos e apreciadores
das artes transitando no Museu, nos ateliês, corredores, jardim e no bar; ponto
de convergência, quase obrigatório. Ir para o museu, trocar ideias ou
simplesmente vaguear, era a razão da vida.
Mordaças militares mataram a liberdade de se estar sendo. O MAM nunca mais foi o mesmo. Andar, percorrer as ruas com silêncios guardados, sempre foi direito de todos. Os detentores do sistema excludente não podiam retirar nossos pensamentos invioláveis e ideais libertários. A escuridão da ditadura dispersou os criadores das artes plásticas e da cultura em geral. Buscávamos saídas criativas; uma delas, Livraria Leonardo da Vinci, um refúgio entre livros com a adorável Dona Vanna!
Queridíssima Dona Vanna, 2015 [foto _ Thomas S. Pires Ferreira]No ano 1970 a meados de 1971, colaborei com a Cruzada de São Sebastião, Feira da Providência _ Dom Helder Câmara, na Parada de Lucas, Oficina de Arte. Quando fui passar um ano na Europa, isto já é outra maravilhosa história. Intensas como a história com as Artes e a Astrologia. A Vida esta intensidade!
Penso em Vinicius de Morais que não era um ícone isolado; Ipanema era sua pátria. Pessoa solícita. Convidado tocou violão e cantou para alunas do tradicional Colégio Jacobina, em 1965, com a maior das generosidades. Antonio Carlos Jobim dava suas caminhadas tranquilamente, só não o via quem não acordasse bem cedo ou nem reparasse um andarilho com chapéu pelo Jardim Botânico atento ao canto dos pássaros e o vento soprando folhagens. Estive com ele, pediu para fazer o seu Mapa Natal astrológico, voltei, havia feito de sua mulher, Ana Beatriz Lontra, em 1979. Emocionada, não consegui falar. Única vez na vida que não consegui analisar, movida de forte emoção, repito.Quardo o Gráfico.
O doce Jobim.
Uma viagem no tempo. Ipanema uma praça onde a realeza se encontrava;
Albino Pinheiro, Fredy Carneiro, Hugo Bidê, Leila Diniz, Maria Vasco. Amávamos
ouvir o guru Luis Carlos Maciel. Havia ainda Olga Savary, Jaguar, Ziraldo, meu
querido Fortuna e gente que nem mais me lembro. Memórias do meu escaninho. Era
uma compensação à margem da Ditadura militar.
Glauber Rocha, muito agitado, tinha ponto marcado nos bares entre
Ipanema e Leblon. Estávamos juntos no tempo em que eu convivia em sensível
amizade com sua irmã, Anecy, que morreu tragicamente em 1977 ao cair num fosso
de elevador.
No Cine Paissandu uma geração inteira se cruzava incontinente em sensualidade e charme. Não é só saudades, é história.
Hélio Pellegrino não se encasquetava no consultório psicanalítico, atendeu clientes enrustidos até mesmo nos bares. Gostava de sentir-se humano, viver sem amarras. Nem tinha preconceitos com a Astrologia profunda. Intelectual doce e meigo. Passou uma tarde em minha casa, num mergulho abissal, 1981.
Nise da Silveira e Mario Magalhães andavam pelas ruas como todo mundo.
Entre fatos interessantes foi convidarem Chico Buarque para jantar no eterno Bar
e Restaurante Lamas. Nise gostava de passear pelo Jardim Botânico com a
gravadora Marlene Hori. E sua grande amiga Lia Cavalcanti, acirrada protetora
dos animais, frequentadora singular da Churrascaria Recreio, convidando a
muitos a beber e degustar, e levando para sua casa sobras de carne para seus
cães.
Artur da Távola sentado num banco em torno da mesa, no Grupo de Estudos
C. G. Jung, era todo atenções para com as sábias palavras de Dra. Nise. Lembranças
que ficam tão sutis e meio perdidas. Pessoas notáveis pela singularidade; artistas,
andarilhos, poetas e intelectuais, de todo tipo, passaram nas quartas-feiras
por este Grupo; porta para o Museu de Imagens do Inconsciente e salto quântico
na vida pessoal. Depois dos estudos com Nise, íamos tomar algo nos bares da
redondeza numa conversa infindável. As noites de inverno eram quentes,
aprazíveis.
As pessoas ricas de saberes e imaginação criativa não andavam em carros blindados, não se esquivavam em carapaças, circulavam entre seus iguais, seres humanos, em beleza e poesia. Gosto imenso do tempo atual onde piso, tendo saudades do atemporal que permanece vivo e presente pela revolução do espírito. A ditadura massacrou porque esvaziou estes núcleos quentes e cheios de esperança por um Brasil libertário.
O
tempo passou tão de repente, perdi a noção. Não tem importância, é assim a
Vida. Inesgotáveis relatos, nossa peregrinação sobre a Terra Mãe.
Ficamos
ilhados, um vírus secreto, covid-19, que nos surpreendeu dando troco diante dos
abusos para com os valores essenciais da Mãe Natureza _ de norte a sul, de
leste a oeste _ ninguém ficou imune. O silêncio na quietude me fez outra? Um
pouco sim, em despojamentos e reflexões acima de mim mesma, apreensões sutil
intransferíveis. Um desejo de harmonia e mais consciência entre povos e nações
por um mundo mais igualitário, fraterno, democrático em solidariedade e humanidade
_
“Amemos uns aos
outros!”_ continuarei a dizer isto até o fim de meus dias.
Quantos encontros maravilhosos! Entretanto a Vida é maior que encontros, inteligência e entendimento, somos destinados a algo incognoscível que nos transcende! Beleza misteriosa que deveríamos abraçar numa entrega plena!
Paulo Alberto Monteiro de Barros _ Artur da Távola _ amizade como um fruto precioso entre tantos que tive oportunidade de convínio social e reino dos Astros.
Martha Pires Ferreira
Nota - não consegui a fonte da fotos.
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