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terça-feira, 3 de julho de 2007

Flores do Bem

COMO O PETRÓLEO, O BONDINHO É NOSSO


Artur da Távola, junho 2007


Amo-te, Santa Teresa, porque recompões o ideal de uma cidade na qual o tempo tempera o progresso, fazendo-o servo, jamais senhor.
Amo-te, por permitires beleza, luz, árvore, timidez e relação direta com o simples que virou raridade no comportamento alucinado dos homens. Amo o teu abrigo e a paz que trazes a este pedaço de um Rio que acabou contudo não desistiu de sonhar com vida possível, bela e o homem viável e solidário, desde que tratado com justiça e muita poesia. Agora que és vítima de tiroteios, agora mais que nunca, proclamo quanto te amo, bairro de Santa Teresa. Mesmo assim, foste e ainda és jardim sem angústia da urbana condição.
Amo-te, porque abrigas crianças saudáveis, com gato, esquina, pipa, ladeira, carrinho de rolimã, lanches fartos, brincadeiras de São João, vó na janela e já, já, namoro no portão.
Amo-te, porque ainda tens bruma, casas arrevesadas, fadas, castelos amenos, fantasmas, refugiados de guerra, bruxas, consertadores de sofás, armazéns com conta, dengosas curvas, e um gosto de conspiração em tuas ruas pálidas, Oxalá iluminadas a querosene. Tens muros pelos quais passam, segredam e urinam os conspiradores contra a ordem material que enfeou o mundo, matou os rios, endoidou o homem e emparedou o passado.
E é porque te amo mesmo sem aí morar é que aplaudo e apoio a reunião de sua coletividade, sábado passado, quando se uniu para uma campanha à qual dou minha modesta adesão. Parece que há um projeto para entregar os novos bondinhos do bairro ao transporte exclusivamente de turistas.
Com razão a comunidade protesta. O bondinho deve ser tanto dos turistas como, principalmente, da população. Um absurdo tirar o morador do seu bondinho, o que resta no Rio de Janeiro de transporte poético, aberto ao vento saudável e ao canto dos passarinhos nas árvores do bairro abençoado. Impedir a população de usar o transporte de viagem mais poética e rápida, além de maldade sem fim é um ato antidemocrático.
Assim como o petróleo, o bondinho também é nosso.

Um comentário:

Deni disse...

oi,

hoje fiz uma viagem no universo junguiano.Comecei pela Casa das Palmeiras, vindo para cá e isto inspirou-me, voltando para Jung sob diversos olhares. Li Nise da Silveira, José Raimundo Gomes e outros, passando por Rubedo. E para encerrar esta tarde "junguiana" voltei a ti, gratificando-me com os primorosos "Conceito de Self para Carl G.Jug",t "Árvore - Coisas que nos encantam", Flores do Bem,até chegar aqui com este texto que já conhecia mas que sempre é uma alegria renovada de ser ler o nosso querido e saudoso Artur da Távola. Obrigada pelas minhas leituras de hoje. Fostes estímulo nesta minha viagem de busca: " Individuar-se é querer diferenciar-se de tudo o mais que não seja viver com autenticidade. É ultrapassar o vislumbre da auto-referência."
com carinho e gratidão,
denise