sexta-feira, 28 de agosto de 2026

A morte e a imortalidade












Minha biblioteca-ateliê. Meu refúgio, minha morada. 

A morte e a imortalidade

Fomos chamados à vida, portanto temos que vivê-la. E se possível vivê-la em toda a sua grandeza, em toda a sua dimensão maior.

Nesta força que nos impulsiona a viver surgem, junto, as perguntas: quem somos, para onde somos, o que somos? De onde viemos e para onde vamos? E sem dúvida a mais crucial das perguntas recai sobre a nossa finalidade na Terra - junto com a indagação para onde iremos?

É o mistério dos mistérios.

Será que vivemos por viver e simplesmente morremos? Será que vivemos apenas para morrer? Será que todos os esforços humanos terminam com um fim em si mesmo, ou, será que vivemos para morrer a morte e vivermos a eternidade, a imortalidade?!

O que é a morte, o que é a vida? Esta é a questão mais profunda levantada por todos os povos e raças, em todas as épocas e culturas. Qual a finalidade biológica, orgânica, matéria-corpo? Qual a finalidade essencial alma-espírito?

Para os tibetanos o que existe é energia, tudo é energia sem início e fim _ tudo é perpetuidade e impermanência.

O ser humano é um animal intenso de energia; calor - vontade, suor - emoção, percepção – sensação, consciência etc.

Somos fogo, terra. ar e água. Metal e madeira, nos afirmam os chineses.

Estamos no mundo, fazemos nossa trajetória, nossa história. Vivemos nossa verdade cotidiana; realidade repleta de chama, evolução e regressão, subidas e descidas perda e ganho.

Tudo vivido no corpo, com e pelo corpo _ no espírito por ele e com ele. Nos debatendo o tempo todo na junção destas duas verdades; corpo e psique, exterior, e interior, Eros e Tanatus, desacerto e acerto existencial. Oscilamos entre opostos.

Vivemos no incansável esforço de realizar projetos de vida, rascunho, ir adiante e realizarmos anseios, ideais. Não podemos parar, a vida nos empurra, nos chama, nos cobra o tempo inteiro em nossa frágil existência. Procuramos realizar nossa utopia, sonhar para frente, progredir, crescer, evoluir. Para quê se morremos? Viver para quê se tudo se desaba com a morte, se nada permanece ou perpetua? Para que tanto esforço se morremos?

Os sábios e as religiões de tradição expressam as mais profundas reflexões e conhecimento a respeito da vida e da morte. Procuram dar resposta à mais angustiante das perguntas: Para que viemos se morrermos?

No campo da filosofia a questão se faz com intensidade:

Heráclito (pré-socrático), faz a afirmação da unicidade de todas as coisas: (fragmentos 6, 10,50,89,103) _ “do separado e do não separado, do gerado e do não gerado, do mortal e do imortal, da palavra (logos) e do eterno”. _ “A sabedoria humana liga-se ao Logos”. _ “O que aguarda os homens após a morte, não é o que esperam, nem o que imaginam” (fragmento 27). Diz ser a alma imortal _ “pois após sua separação do corpo, volta à alma universal, ao homogêneo (Aet. IV, 7,2).

Platão _ discursou sobre a imortalidade.

Kant _ fala sobre o que devemos esperar da vida.

Spinoza _ sedento de eternidade não separa o corpo da ideia de eternidade (Spinoza, Espinosismo pg. 69) __ O corpo e a alma fazem parte de uma unicidade na organização eterna da natureza.

Heidegger 1891 _ o objeto próprio de reflexão filosófica é o homem em sua existência concreta _ o ser no mundo. Com mais idade ele deixa transparecer este anseio da eternidade do ser _ a transcendência.

Kierkegaard _ cristão dinamarquês, faz a reflexão do corpo/matéria e alma; visa imortalidade, eternidade.

Para grandes sábios e místicos a morte não é o limite, não é o fim em si mesmo, mas o intercâmbio entre a vida e a imortalidade _ a passagem entre a vida física e a eternidade _ a unicidade. A morte aparece como transformação do ser biológico em ser essencial; corpo e espírito, matéria e alma.

A morte, o morrer, é dirigir-se para a fonte, a unicidade primordial da vida. É um romper, um emergir para algo maior (que o morrer), é  atingir no indizível, o incognoscível, o transcendente.

O nascimento biológico traz em si o conhecimento dramático da vida. O ser que nasce sabe que um dia morrerá. Esta ideia terrível nos sufoca e nos angustia visceralmente. Não queremos pensar em morrer, somos esfomeados de viver, de felicidade, de absoluto, de plenitude cotidiana. Somos insaciáveis na dinâmica energética com o nosso sentimento, amor, sensualidade, sexualidade, percepções sensíveis. Somos fome de vida!

A morte, para um sábio, é um abrir perspectiva sobre o significado limitado da vida que morre.

Ansiamos por uma vida de luminosidade, algo majestoso e unificador que implode no reino da vida _ ansiamos a imortalidade. Só com amorosidade afetiva apreendemos a verdade.

Martha Pires Ferreira, meados de 1987.

___ [Artigo manuscrito em 1987, momento em que eu refletia, profundamente, sobre a existência _ Oriente e Ocidente [texto em arquivo] – Curioso é nada citar sobre Thomas Merton, Teresa d’Ávila nem Teilhard de Chardin _ cristãos que muito eu lia com prazer e identificação. Neste período distante, anos 1980, estive avessa sobre catolicismo/igreja/clero/moralismo dogmático  _ vivia na liberdade absoluta de pensar, intuir]. ]. Assim vivo... aqui e agora no relativo para a imortalidade!







Um almoço perto do Natal.

A gata Pretinha, já havia almoçado, não tocana em nada, acompanhava refinadamente.

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