Meu contato humano com Raphael _ Quaternio _1975

Meu contato humano com Raphael

                                       Martha Pires Ferreira

  Para mim é muito difícil escrever sobre um relacionamento onde a mais sutil afetuosidade é essencial. As palavras são por demais precárias para tratar de coisa tão delicada como é o contato afetivo entre mim e Raphael Domingues.

   Em 1968 conheci Dra. Nise da Silveira, a quem levei meus desenhos. Pela semelhança dos traços, Dra. Nise me convidou a vir até aqui na STOR (Setor de Terapêutica Ocupacional e Recuperação), a fim de conhecer os trabalhos de Raphael, o que fiz poucos meses depois.

   Cheia de admiração, vi o quanto nossos desenhos têm em comum quanto ao grafismo. Linhas puras em traços livres. Manusear toda a sua obra foi algo de impressionante. Voltei para casa em silêncio. Não conseguia falar sobre a impressão causada. E recordo; passei alguns dias pensativa. Os desenhos de Raphael surgiam nítidos aos meus olhos. Eu quase pude compreender o porquê de um homem com tal dose de sensibilidade viver totalmente rompido com a realidade externa. E a cada dia compreendo mais. Senti uma dor profunda e um respeito imenso dentro de mim. Eu sabia apenas que se tratava de um dos muitos internados no Hospital, aqui vivendo há cerca de trinta anos, em plena solidão, e que há mais de dezoito anos não desenhava como antes, desenhos maravilhosos que estão aí no Museu para todos nós vermos com a alma.

   Raphael se protegeu no silêncio, perdeu o elã para o desenho. A realidade grosseira do mundo externo o impediu de estabelecer conceitos de vida, de se relacionar harmoniosamente com as forças da natureza. Mal começava a dar forma aos seus afetos, a desenvolver suas forças criativas no que há de mais sensível e íntimo, foi dilacerado, rompeu com a realidade externa, se fragmentou ou foi fragmentado (como as coisas se passam eu não sei, é um mistério absurdo!).

   Conhecer toda a sua obra é estar em contato vivo com o gênio criador, é plasmar a beleza dos sentidos mais refinados e penetrar no próprio segredo da imaginação onde fluem as mais autênticas formas de expressão, percepção das mais apuradas. O desenho em si merece um estudo no sentido plástico. Ele se inclui sem qualquer dúvida entre os melhores do Brasil e do mundo. O crítico de arte Mário Pedrosa escreveu sobre os desenhos de Raphael, mas seria extraordinário que outros escrevessem com o mesmo interesse.

   Em fins de 1969, voltei ao hospital e aproveitei a ocasião para entrar em contato com Raphael. Eu quis conhecê-lo de perto. Entrei no ateliê de pintura, observei o homem de feições delicadas e de mãos leves a traçar risquinhos no papel, e que mãos!

   Docemente, depois de longo tempo de observação, perguntei o que estava desenhando. Permaneceu em silêncio como se eu nem existisse. Pediram que ele falasse comigo, não me deu a menor atenção. Continuou nos seus tracinhos sem ao menos me olhar. Fiquei observando por algum tempo mais – baixinho e risonha disse para ele: “esses tracinhos parecem canto de pássaros, ti... ti... ti...”. Para surpresa geral, ele levantou os olhos amêndoas e repetiu; “canto de pássaros”, e novamente mergulhou no silêncio.

  Saí da sala enternecida. Raphael, os outros hóspedes da casa entregues aos seus trabalhos de criação, os cachorros, os gatos, o cuidado das monitoras, as árvores que se podiam ver lá fora; tudo me emocionou. Senti um bem-estar especial.

   Comentei com Dra. Nise o meu encontro com Raphael. Ela se levantou da sua cadeira, os olhos brilharam, e me sugeriu trabalhar aqui com ele. Viu em mim uma possível catalisadora das energias psíquicas desse grande artista. Não hesitei, a impressão que Raphael me causou com sua leveza e o seu mistério, mais a maneira altamente humana com que o pedido me foi feito, fizeram com que eu me sentisse diante de um apelo maior vindo do mais profundo de meu ser, uma predisposição diante do desconhecido.

   Raphael é e sempre será um enigma para todos nós, mas jamais um ser que perdeu o calor humano, o afeto, a percepção da realidade grosseira que nos cerca. Raphael é um ser humano como outro qualquer, ele vibra em sua natureza mais íntima, apesar de se refugiar no isolamento. Pude constatar ao vivo que nele subsistem os mais variados sentimentos, a dor mais profunda ou a ternura de um ser tranquilo. Contrastes tantos!

   Num puro contato afetivo pude observar que ele sempre se sente satisfeito de alguma forma com a minha presença. Os carinhos que faço em suas mãos são retribuídos com a mesma afetuosidade, as palavras ditas sem exageros e com simplicidade são acolhidas com refinada emoção. Raphael é um homem nobre nos gestos, no olhar doce e meigo, nos levíssimos toques de acariciamento em meu rosto, em minha cabeça, em minhas mãos, em meus seios, por vezes, e em minhas pernas ou pés. São toques levíssimos, gratuitos e sutis.

   Nenhuma só vez deixou de se comunicar comigo de alguma forma. De junho de 1971 a julho de 1972 estive ausente por razões de viagem, o que em muito atrapalhou o nosso relacionamento. Um ano de ausência foi muito, foi demais.

   Com espontaneidade, o lúdico se faz presente e atuante, nesse meu desejo de fazer Raphael ter em mim uma amiga, alguém que gosta muito dele, que vem visitá-lo e ficar a seu lado com a mesma naturalidade com que normalmente ficamos com os amigos de que gostamos. Uma aproximação em que o sentimento é a mola mestra ou mágica de tudo.

   Foi em novembro de 1969 que iniciei minha atividade, o meu contato regular com Raphael Domingues.

   Logo no primeiro dia falei das árvores e do sol lá fora. Imagens poéticas para dar início à nossa aproximação humana – nada de artifícios, tudo muito espontâneo.

   Quase na hora de ir embora, uma das monitoras se aproximou e brincando se dirigiu a Raphael: “Você arranjou uma namorada, hein? Como é o nome dela?” Levantou a cabeça, olhou fixo para mim e, voltando o rosto para o papel, respondeu em voz clara: “Espanholita”, e sorriu, como que satisfeito pela resposta que dera e mergulhou novamente nas profundezas de seu ser.

   Resposta tão apurada e sutil mostra o quanto ele é consciente. Raphael vive em esferas mais altas. Nunca duvidei dos seus instantes de lucidez.

   Sua doçura é como a das crianças, mas, quando fala, a maneira como fala é própria dos homens adultos, parece consciente de si. Raphael raramente diz as coisas, talvez por índole, mais do que por vontade, prefere o silêncio.

   Jamais gosta de ser tratado como criança, despreza qualquer manifestação piegas e transparece ar de satisfação diante da delicadeza. Para mim até hoje os contatos com Raphael são de uma riqueza enorme e de um mistério lindíssimo. Se assim não fosse, não teria sentido eu permanecer presente nesta aproximação afetuosa – descer de Santa Teresa e enfrentar distâncias.

   Quando dá maior atenção ao seu ato de criação, Raphael se torna mais tenso emocionalmente, o rosto torna-se endurecido, a testa se enruga, ele tosse, se engasga de emoção. A gente percebe o quanto está sofrendo nesse instante.

   Muito importante é estar atenta aos seus mais imperceptíveis movimentos, anseios ou frases. Sabe perfeitamente quando se está prestando atenção. Tão sutil que é, percebe quando me distraio, se me ausento em pensamento. Parece que sabe o que sinto, percebe tudo que o cerca, tive várias provas disso. Suas antenas perceptoras são poderosíssimas, parece que lê os sentimentos. E curioso é constatar como ele dispensa imediatamente qualquer falso sentimento de afeto na aproximação – isso foi uma coisa que me impressionou muito.

   Quantas vezes me vi e ainda me vejo constrangida diante de sua quase invisível consciência do comportamento das pessoas. Para mim, Raphael, que vive alado, nos seus raros momentos de pouso, registra tudo, observa tudo.

   Às vezes não me dá a menor confiança, nem parece dar ouvidos às minhas palavras, e de repente é capaz de estender as mãos e me acariciar o rosto ou a cabeça, num gesto indescritível.

   Uma coisa que eu acho tão bonita nele, e que é poético aos meus olhos, é quando suspende os braços e com a pena faz gestos livres, passando a pena ou pincel em torno da cadeira, embaixo da mesa, em torno do meu corpo, entre meus braços etc. São muitas as maneiras de brincar com a sua fantasia. Faz verdadeiros desenhos no espaço.

   Raphael perdeu o elã para o ato criador, o trabalho de criação. Durante os últimos vinte anos ele vem mostrando um automatismo quase que unicamente feito de tracinhos minúsculos, estereotipia que seguiu seu período de apogeu, que foi de 1946 a 1949.

   Não se deve pedir jamais a um artista, seja lá quem for, para desenhar isto ou aquilo, mas, para motivá-lo de alguma forma e porque me senti bem à vontade, ousei fazer o que não se deve fazer; pedi a Raphael que desenhasse uma borboleta, ele olhou o papel e fez uma espécie de triângulo, depois me perguntou: “É assim que se faz?” – “Sim, Raphael, é assim mesmo, qualquer traço pode ser uma borboleta”. Com a minha resposta, sorriu e acariciou a minha cabeça. Mais pelo fato de eu não estar presa à forma das coisas. Importante notar que ele não desenhou apenas porque eu pedi, ele mesmo quis, espontaneamente. Ele percebe as coisas, não é tão desligado como se pensa.

   Muito pouco a pouco, cheio de receios e cuidados, ele vem voltando a desenhar, a tocar melhor no mundo externo, ele já não invade toda a folha de papel, a partir de 1970 chegou a desenhar rostos humanos, gatos, círculos, pássaros, sol, flores e outros símbolos enigmáticos para todos nós. Algumas raras vezes os desenhos são sugeridos por mim. Percebi que ele gosta que eu me faça assim íntima, mas isso não impede que os desenhos saiam espontâneos de dentro dele. Não dá um só traço que não esteja de acordo com a sua própria vontade.

   Uma vez eu pedi que ele desenhasse o contorno de minha mão, ele desenhou. Depois, sem que eu dissesse qualquer coisa, ele mesmo contornou com o lápis a mão dele. Eu achei isso muito bom, uma forma de se relacionar comigo. Quando estas coisas acontecem, eu fico por demais feliz. Muitas vezes diz coisas impossíveis de se compreender. São frases soltas e histórias irreais, absurdas, como nos sonhos. Mesmo quando suas frases são incompreensíveis, estou em plena atenção, é sempre bom o ver  sair do seu silêncio profundo e conversar comigo.

   Nunca me espantei se a nossa conversa é um absurdo aparente. Para mim nada se perde, por mais insensato que pareça. Se ele me diz que estou debaixo da mesa, dentro da caixa do sapateiro ou do outro lado do buraco da parede, respondo intuitivamente, como vier a inspiração, e consigo prosseguir por um tempo a nossa conversa. Tudo é importante neste contato, e o mais profundo respeito é a chave preciosa para o melhor convívio.

Assim que me retiro do ateliê procuro fazer algumas anotações. É necessária uma absoluta discrição, caso queira fazer anotações ao lado de Raphael. Aconteceu-me algumas vezes ele apanhar minha folha de papel para ler (leu alto, com uma atitude de indiferença). Felizmente eram anotações de menor importância. A gente aprende demais, esta minha experiência humana, viva, com Raphael, me ampliou por dentro e por fora. Amadureci como nunca, e sem perder a minha poética.

    Minhas anotações não foram datadas, apenas me prendi aos fatos.

    1. Levei um livro de Goeldi, coloquei-o em cima da mesa. Raphael olhou com toda atenção, e de vez em quando dizia alguma coisa sobre o que via e apontava com o       dedo.

    2.  Escondeu minha caneta e me observava como quem não está sabendo de nada. É a sua maneira de brincar comigo, e parece que com as monitoras ele também gosta de esconder os objetos e observar a reação causada.

    3.  Quando está rebelde não quer saber nem de me olhar. A rebeldia se manifesta em não querer me dar qualquer atenção, é como se eu não existisse.

Saiu de perto de mim e foi sentar-se noutra mesa. Fui até ele e perguntei:

    – Raphael , você não quer ir para a outra mesa e ficar perto de mim?

    – Não, estou bem aqui – foi a resposta clara e decisiva.

    Mais tarde, depois de certo tempo, se levantou, veio para perto de mim e tocou em minhas mãos com toda aquela leveza que lhe é própria.

     4. Assim que cheguei começou a falar uma porção de coisas em voz alta; frases desconexas. Convidei-o para passear até a janela. Mostrei o que havia lá fora; fez carinho em minhas mãos. Voltamos para a mesa. Desenhou os seus traços, olhou para as minhas pernas e, com delicadeza, tocou nelas, dizendo malicioso: “coxas grossas!”. Olhou para mim e riu maroto. Sorri afetuosa e acariciei suas mãos e seus ombros. É importante não se ter qualquer preconceito, é necessário simplicidade, disponibilidade.

    5.  Entro no ateliê e dispenso carinho a outros hóspedes (os outros sempre me olham desejosos de atenção e reclamam com as monitoras, o que me sensibiliza). Aproximo-me de Raphael, ele me recusa indo sentar-se noutra mesa. Assobia baixinho (muitas vezes, quando está bem consciente, assobia e canta baixinho). A testa torna-se tensa. Olha para mim meio de lado e me observa. Fico sem saber o que fazer. Chego até ele e toco em seu braço, ele se afasta aborrecido. Ao repetir o meu gesto, Raphael puxa os meus cabelos de leve, mas com raiva. Vi-me desarmada, com jeito saí da sala devagar. A monitora disse que nunca viu Raphael fazer isso. Tive uma ideia, comprei cigarros e lhe ofereci em silêncio. Sorriu e tocou em meu anel como se nada tivesse acontecido.

Inexperiente, eu não havia pensado em cenas de ciúmes. Ele quer atenção especial, quer sentir em mim exclusiva afeição por ele.

    6.  Sempre que peço para se afastar um pouco para eu ver o que ele desenha, afasta-se para que eu possa ver bem à vontade. Pergunto se quer um cigarro, ele coloca a caneta de lado, se ajeita na cadeira e espera que eu lhe entregue o cigarro nas mãos, e depois acende o fósforo (ultimamente ele mesmo acende o cigarro, coisa que não fazia antes).

    7. Houve um festival de canção aqui na STOR. Raphael não quis saber de mim. Procurei conversar, dizer alguma coisa. Nada adiantava, qualquer tentativa de comunicação me parecia inútil. Senti-me em grande dificuldade, sem saber o que fazer. Relaxei-me na cadeira ao lado dele e deixei a intuição brotar de dentro de mim. Olhando para ele, sério, eu disse: “Raphaelzinho, você não quer saber de mim, não quer me dar qualquer atenção? Vim só para ver você e você não está se importando comigo; mesmo assim eu vou cantar para você e você vai me ouvir”. E comecei a cantar canções populares e cantigas de roda. Raphael permaneceu quieto; depois de algum tempo olhou para mim e sorriu. Que alegria intensa em mim! Deu-me as suas mãos e acariciou as minhas. Pegou em meu colar, que retirei em seguida do pescoço, e ele mesmo o colocou em seu pescoço.

   Tudo isso me comove. É riqueza demais, é como tocar no mágico, no indescritível. As palavras são poucas, pobres demais para falar de um relacionamento que só pode ser constatado ao vivo. O que se diz ou o que se escreve é um rascunho muito longínquo do real. Só a vivência pode falar por si mesma.

    8. Normalmente permaneço em silêncio ao lado dele. Certo dia, querendo forçar uma comunicação maior com Raphael, pedi que ele escrevesse borboleta; ele escreveu “BORBOLETA”. Eu, na minha total estupidez e ignorância, pedi que escrevesse ave, ele escreveu “BOBA”.

   Raphael me deu uma lição incrível. Desconcertou-me completamente. Quem está transmitindo ou mobilizando quem? Perguntei-me nesta ocasião (14 abr. 1970).

    9.  – Raphael vamos para a outra mesa?

 – Não. Creio que estou bem aqui. Estou desenhando.

   E continuou os seus traços, dando intervalo com gesto aparentemente gratuito.

   10 – Fiz um cafuné em sua cabeça, como de costume, e pedi que ele também fizesse um cafuné em mim.

Levantou as mãos e tocou em meus cabelos com leveza, e disse:

– Cabelo, cabelinho, fininho.

   11 – Você sabe desenhar um relógio?

    Ele estava olhando o meu relógio,  respondeu:

 – Não sei, é coisa muito séria. Marca as horas

    12.  Hoje Raphael falou muito. Andou pela sala. Sentou e desenhou como de costume os seus tracinhos. Segurou minha mão e a colocou com as pontas dos meus dedos sobre a sua cabeça, friccionando-a, como que pedindo que eu mesma fizesse esse exercício. Parece que se sentiu aliviado com a massagem. Sorriu para mim, como que agradecido. E me olhou. Seu olhar era profundo e doloroso. Ajeitou-se na cadeira e continuou a trabalhar. Relaxou-se novamente, tornando-se um homem grave e angelical.

    13.  Raphael pega em meu colar e o observa com todo cuidado. Diz algumas coisas, bem baixinho (não consigo entender o quê). É um gesto comum nele.

    14. – Raphael, eu tenho que ir embora. Até outro dia.

      Não tem importância (voz mansa, resignada).

    15. Hoje Raphael parecia contente. Assobiava baixinho enquanto preenchia o papel com seus traços minúsculos.

Estela, uma senhora que vinha sempre aqui na STOR, chegou perto dele e pediu que desenhasse o rosto dela. Olhou para a mulher, abaixou os olhos e traçou um rosto.

    16.  Raphael pegou o meu rosto com as duas mãos (como de costume) e, como um poeta lírico, murmurou:  “Peixinho, peixinho, peixinho”. Sorriu com ternura, ajeitando-se na cadeira. Olhou-me e continuou seu trabalho.

   Estes momentos de lucidez me emocionam até o fundo da alma. São gestos espontâneos e sadios.

    17.  Levei alguns desenhos meus para Raphael ver. Foi um choque emocional. Ficou irrequieto, começou a tossir muito, o rosto se tornou vermelho. Disse em voz clara, e baixa:

    – Bem feitinho, bonito.

   Disfarçando, olhou para a minha caneta e observou:

   – Uma canetinha...

   Guardei os desenhos e segurei suas mãos. Acariciou minhas mãos e murmurou monossilábicas palavras que não entendi.

   Ofereci um cigarro e permanecemos em silêncio.

   Sei que ele percebeu a semelhança entre os nossos traços.

   18.  Raphael estava desenhando tudo num cantinho do papel. Sugeri:

   – Raphael, desenhe no outro lado do papel, seu bobo.

   – Seu bobo, vírgula – foi a resposta clara e firme. E continuou seu trabalho.   

   Não esquecer que Raphael estava rompido com o mundo externo, não se expressava com a realidade externa há mais de vinte anos.

    19.  Retirei da bolsa um lápis e aproveitei fazendo o mesmo com a minha carteira de identidade. Coloquei-a sobre a mesa e mostrei minha foto para Raphael, ele olhou, disse: “A espanholita”, e sorriu.

    20. – Raphinha, eu já vou embora.

    – Está bem, está bem (ele respondeu).

    – Você vai sentir saudades?

    Fez que sim com a cabeça e me olhou rápido.

    Este relacionamento humano tão delicado necessita de alta sensibilidade no trato.

    21. – Raphaelzinho, como são as mulheres?

    – Mulher é um bicho muito esperto (Moacir, um funcionário, presenciou a resposta).

    As rupturas com o mundo exterior não impedem que ele observe como qualquer ser humano. Não há a menor dúvida de que estão vivos os componentes de afetividade dentro de Raphael. Eu sei que ele percebe e ele sabe que eu percebo. Os olhares grosseiros não podem entender as sutilezas da vida, e por isso dizem que tais sutilezas não existem. Basta saber tocar de leve no coração de um esquizofrênico (um ser que rompeu com o nosso mundo real-externo) para conhecer o quanto de calor aí existe.

    22.  Raphael passou muito tempo cantando baixinho:

    _ Tem, tem, tem...

    Parecia feliz e contente enquanto traçava os riscos no papel.

    _ Raphael, eu sou uma gatinha e você é um gatinho, sabia?

    -- Todo mundo é um gatinho – respondeu em voz baixa, e mergulhou nas profundezas do seu ser.

Ofereci um cigarro. Fumou. Levantou-se e disse:

   ― Eu acho que vou andar um pouco – e  saiu andando pela sala. Depois voltou, sentou-se, levantou-se novamente, dizendo:

   ― Acho que vou sentar ali.

    Deu alguns passos e foi sentar-se perto da janela. Dói muito saber o quanto o peso de um Hospital massificante sufoca seus componentes humanos. Não vou falar aqui da necessidade de acomodações adequadas dentro do Hospital, iria me estender demais.

    23.  Fomos passeando até a janela. Mostrei o Sol:

   ― Olha como o Sol está bonito lá no céu!

     O céu é um buraco no meio; respondeu monossilábico. Um mês depois, no MAM, eu via uma obra de um artista japonês; As núpcias do Sol com a Lua (o nome da obra)  um Sol imenso com um buraco no meio

   24.  Entro na sala. Raphael me vê, caminha a meu encontro (o que é raro) e diz: “Que bonito!” – tira o meu colar do pescoço e coloca no dele. Conversa comigo frases inexplicáveis, fantasias. Gosta que eu o escute com atenção. Põe-se a desenhar. Peço que assine o trabalho, ele escreve AMIGO.

    Meus olhos se enchem de água. Parece algo transcendente, algo de mágico em tudo isso.

    Ao sair, falei baixinho, com a maior doçura:

       Não fique com saudades demais. Fique tranquilo, eu volto para a semana. Olhou-me com extrema sensibilidade.

    Saí do hospital com o coração entre as mãos. Perplexa na beleza e precisando inventar forças para continuar um trabalho como este. Há muito de doloroso em tudo isto (14 jul. 197   

    25. ―  Raphael, fale comigo. Você está tão silencioso

    Ele não se faz entender.

   ― Fale com a Marthinica.

    Nada. Quase na hora de eu sair, já tendo passado muito tempo em silêncio, estendeu as mãos, segurou minha cabeça com as duas mãos e disse:

   ― Marthinica, Marthinica, Marthinica – e sorriu.

   Isso foi em 1971. Em outubro ele espontaneamente se lembrou de me chamar de Marthinica e um ano depois, em 16 de outubro de 1973, desenhou o meu rosto com o Sol na cabeça e outro Sol fora. Para não se ter dúvida de que o rosto era meu, escreveu embaixo – MARTHINICA.

    26.  Como vai o meu Raphaelzinho?

    ― Muito bem.

    ― Você dormiu bem?

    ― Dormi muito bem.

    E se ajeitou na cadeira para desenhar.

    27.  Hoje Raphael cantou baixinho. Depois ficou em silêncio. Perguntei se ele gostaria que eu cantasse para ele ouvir. Sorriu e fez que sim com a cabeça.

    28. Algumas pessoas entraram no ateliê e, chegando até Raphael, fizeram perguntas. Ele se levantou e foi para a janela, deu voltas pela sala e se sentou no chão. Quando as pessoas saíram fui até onde ele estava, segurei em seu braço e pedi que voltasse comigo até a mesa. Assim que se sentou, olhou meio de lado e disse em tom de raiva:

    ― Perguntando, perguntando.... e outras coisas que não entendi.

    Não é possível escrever tudo o que aconteceu neste relacionamento, nesta experiência viva.

    Tentei com Raphael o uso de vários materiais. Consegui que ele trabalhasse com guache, aquarela, nanquim, caneta pilot, caneta de escrever, esferográfica etc. Se ele não saiu completamente da estereotipia, pelo menos não é tão autômato como antes, agora ele sabe melhor como lidar com os espaços vazios. E o seu relacionamento com as pessoas melhorou bastante, ele já me olha nos olhos com mais frequência.

     Fazemos parte de um todo no qual Raphael também está presente como é e pelo que é, no grande mistério que o cerca em sua doença, no segredo da vida que lhe permitiu criar obras de arte excepcionais, tão raras em seres normais. Se Raphael tem ganhado alguma coisa comigo, muito mais tenho eu com ele.

    Importante em tudo isso é dizer que Raphael vive ―  vibra, sente, odeia e ama. E que somos pretensiosos ao pensarmos que somos tão mais conscientes do nosso próprio ser, tão mais normais em nossas atitudes ou tão mais sábios em nosso comportamento.

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__ Trabalho apresentado no Grupo de Estudos do Museu de Imagens do Inconsciente, dia 11 de junho de 1974, RJ.

 Publicado na Revista Quaternio do Grupo de Estudos C. G. Jung, RJ, em 1975. Publicação FUNART, MUSEUS (col. Museus Brasileiros), Rio de Janeiro, 1980.

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