Minha biblioteca-ateliê. Meu refúgio, minha morada.
A morte e a imortalidade
Fomos chamados à vida, portanto temos que vivê-la. E se possível vivê-la em toda a sua grandeza, em toda a sua dimensão maior.
Nesta força que nos impulsiona a viver surgem, junto, as
perguntas: quem somos, para onde somos, o que somos? De onde viemos e para onde
vamos? E sem dúvida a mais crucial das perguntas recai sobre a nossa finalidade
na Terra - junto com a indagação para onde iremos?
É o mistério dos mistérios.
Será que vivemos por viver e simplesmente morremos? Será que
vivemos apenas para morrer? Será que todos os esforços humanos terminam com um
fim em si mesmo, ou, será que vivemos para morrer a morte e vivermos a
eternidade, a imortalidade?!
O que é a morte, o que é a vida? Esta é a questão mais
profunda levantada por todos os povos e raças, em todas as épocas e culturas. Qual
a finalidade biológica, orgânica, matéria-corpo? Qual a finalidade essencial
alma-espírito?
Para os tibetanos o que existe é energia, tudo é energia sem
início e fim _ tudo é perpetuidade e impermanência.
O ser humano é um animal intenso de energia; calor - vontade,
suor - emoção, percepção – sensação, consciência etc.
Somos fogo, terra. ar e água. Metal e madeira, nos afirmam os
chineses.
Estamos no mundo, fazemos nossa trajetória, nossa história. Vivemos
nossa verdade cotidiana; realidade repleta de chama, evolução e regressão,
subidas e descidas perda e ganho.
Tudo vivido no corpo, com e pelo corpo _ no espírito por ele
e com ele. Nos debatendo o tempo todo na junção destas duas verdades; corpo e
psique, exterior, e interior, Eros e Tanatus, desacerto e acerto existencial.
Oscilamos entre opostos.
Vivemos no incansável esforço de realizar projetos de vida,
rascunho, ir adiante e realizarmos anseios, ideais. Não podemos parar, a vida
nos empurra, nos chama, nos cobra o tempo inteiro em nossa frágil existência. Procuramos
realizar nossa utopia, sonhar para frente, progredir, crescer, evoluir. Para
quê se morremos? Viver para quê se tudo se desaba com a morte, se nada
permanece ou perpetua? Para que tanto esforço se morremos?
Os sábios e as religiões de tradição expressam as mais
profundas reflexões e conhecimento a respeito da vida e da morte. Procuram dar resposta
à mais angustiante das perguntas: Para que viemos se morrermos?
No campo da filosofia a questão se faz com intensidade:
Heráclito (pré-socrático), faz a afirmação da unicidade de
todas as coisas: (fragmentos 6, 10,50,89,103) _ “do separado e do não separado,
do gerado e do não gerado, do mortal e do imortal, da palavra (logos) e do
eterno”. _ “A sabedoria humana liga-se ao Logos”. _ “O que aguarda os homens
após a morte, não é o que esperam, nem o que imaginam” (fragmento 27). Diz ser
a alma imortal _ “pois após sua separação do corpo, volta à alma universal, ao
homogêneo (Aet. IV, 7,2).
Platão _ discursou sobre a imortalidade.
Kant _ fala sobre o que devemos esperar da vida.
Spinoza _ sedento de eternidade não separa o corpo da ideia
de eternidade (Spinoza, Espinosismo pg. 69) __ O corpo e a alma fazem parte de
uma unicidade na organização eterna da natureza.
Heidegger 1891 _ o objeto próprio de reflexão filosófica é o
homem em sua existência concreta _ o ser no mundo. Com mais idade ele deixa
transparecer este anseio da eternidade do ser _ a transcendência.
Kierkegaard _ cristão dinamarquês, faz a reflexão do corpo/matéria
e alma; visa imortalidade, eternidade.
Para grandes sábios e místicos a morte não é o limite, não é
o fim em si mesmo, mas o intercâmbio entre a vida e a imortalidade _ a passagem
entre a vida física e a eternidade _ a unicidade. A morte aparece como
transformação do ser biológico em ser essencial; corpo e espírito, matéria e
alma.
A morte, o morrer, é dirigir-se para a fonte, a unicidade
primordial da vida. É um romper, um emergir para algo maior (que o morrer), é atingir no indizível, o incognoscível, o
transcendente.
O nascimento biológico traz em si o conhecimento dramático da
vida. O ser que nasce sabe que um dia morrerá. Esta ideia terrível nos sufoca e
nos angustia visceralmente. Não queremos pensar em morrer, somos esfomeados de
viver, de felicidade, de absoluto, de plenitude cotidiana. Somos insaciáveis na
dinâmica energética com o nosso sentimento, amor, sensualidade, sexualidade,
percepções sensíveis. Somos fome de vida!
A morte, para um sábio, é um abrir perspectiva sobre o
significado limitado da vida que morre.
Ansiamos por uma vida de luminosidade, algo majestoso e
unificador que implode no reino da vida _ ansiamos a imortalidade. Só com
amorosidade afetiva apreendemos a verdade.
Martha Pires Ferreira, meados de 1987.
___ [Artigo manuscrito em 1987, momento em que eu refletia, profundamente, sobre a existência _ Oriente e Ocidente [texto em arquivo] – Curioso é nada citar sobre Thomas Merton, Teresa d’Ávila nem Teilhard de Chardin _ cristãos que muito eu lia com prazer e identificação. Neste período distante, anos 1980, estive avessa sobre catolicismo/igreja/clero/moralismo dogmático _ vivia na liberdade absoluta de pensar, intuir]. ]. Assim vivo... aqui e agora no relativo para a imortalidade!
Um almoço perto do Natal.
A gata Pretinha, já havia almoçado, não tocana em nada, acompanhava refinadamente.
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